Estávamos com intenções de parar em Porto Covo, então fizemos uma volta de reconhecimento pela vila e arredores em busca de um sítio para acampar... mas sem sucesso. Quando já estávamos na estrada que partia da vila, o André manda o bitaite "porque é que não pedimos para ficar numa destas quintas?" Paramos. Pensamos. Bolas, porque não. No máximo mandam-nos dar uma volta, ou soltam os cães :P Enveredámos por um caminho que se assemelhava a uma entrada... e damos com um senhor a descarregar uma carrinha. Dirijo-me a ele enquanto os meus companheiros se acobardam à vista de um cão solto (mariquinhas!) e digo-lhe, do melhor jeito que o meu cabelo empastado, barba suja e olhar ligeiramente tresloucado permitiam: "Boa tarde! Olhe, nós (aponta para os maricas) estamos a viajar de bicicleta pelo Alentejo, viemos desde a Figueira da Foz (ah conhece, ah que bom) e estávamos à procura de um sítio para passar a noite. Será que não tem um cantinho para nós? Somos gente sossegada e saímos pela manhã!"
Deitámo-nos ao trabalho de montar as tendas, preparar o jantar... e depois fomos (tirando o Tiago, a ressacar da gripe na tenda) dar uma volta à vila de Porto Covo, que nos ia reservar mais umas surpresas.
Abraço, até à próxima
Saldo: 279km
Encontrámos, no entanto, alguns sítios assinaláveis como lixeiras. Maioritariamente restos de entulho - produto das obras realizadas perto - ou madeiras velhas. De realçar um veículo tipo tractor abandonado e um frigorífico submerso em caruma.
Esta informação vai ser guardada de momento, até à reunião do grupo figueirense, onde se vão tomar decisões quanto ao que tem que ser feito até ao dia L.
Próxima excursão com data a definir!
...UM DIA, todo o lixo que polui as florestas por Portugal fora, desde clareiras cheias de frigoríficos velhos, rodas de camiões desfeitas, bidões de metal cheios de entulho das últimas obras que se fizeram ali perto, até parques de merendas onde têm que comer rodeados pelos detritos humanos que dez anos de picnics foram deixando acumular em redor das árvores...
DESAPARECESSE COMO POR MILAGRE?
Não era bom?
Era sim, dizem vocês. Mas todos sabemos que não há milagres.
Então e se… NÓS fizéssemos desaparecer esse lixo, NUM DIA? Não era igualmente bom? Até melhor?
Eu acho que sim. Alguns de vocês podem achar que sim. Outros podem dizer que é impossível.
E se eu vos dissesse que… já foi feito?
A 5 de Março de 2008, no culminar de um esforço voluntário de mais de 50 mil pessoas, as florestas da Estónia foram limpas num golpe limpo e perfeito.
O movimento irmão lusitano – Limpar Portugal – já tem uns milhares de aderentes, um site oficial de apresentação do projecto, e um de cariz mais prático: uma rede social para promover o contacto entre membros e facilitar a logística de todo o movimento. Já tem até, um dia marcado – o dia L – para a limpeza das florestas portuguesas.
Como funciona?
Existe uma hierarquia: no topo temos a Coordenação Nacional, formada pelos 3 membros fundadores, os Coordenadores Distritais e Técnicos. Têm a função de dinamizar o movimento a nível nacional: contactar com os meios de informação, convocar reuniões nacionais e criar protocolos com as empresas e instituições que aderem ao projecto.
O segundo nível é ocupado pelos Coordenadores Distritais que têm ao seu dispor os recursos do distrito que coordenam, têm que realizar as mesmas tarefas a um nível regional. Além disso, têm tarefas mais específicas como lidar com as autoridades regionais, e controlar a comunicação e interacção dos vários grupos de membros dentro do seu distrito.
Estes grupos são liderados por Coordenadores de Concelho ou Local, e têm um papel verdadeiramente crucial no dia L: coordenar os grupos para lixeiras específicas, definir rotas de transporte de lixo e locais de armazenamento, para além das mesmas responsabilidades acima referidas, a nível local.
Para funcionar, é necessário atingir uma massa crítica. Temos de tornar o movimento tão visível quanto possível aos olhos de todos, usando televisão, rádio, VIP's, etc. Como estes meios se encontram um bocado foram do meu alcance, proponho-vos: dêem uso às redes sociais. Messenger, Myspace, Hi5, Facebook, Twitter? Falem sobre o assunto, ponham um link algures e já ajuda :)
O que fazer para se juntar ao movimento?
Primeiro, informem-se.
O site oficial tem uma secção de Documentação, onde podem consultar a política do movimento sobre diversos assuntos como classificação de lixo, como reportar uma lixeira, que materiais são precisos para lidar com o lixo, etc.
O último documento a ser adicionionado foi o Manual de Actuação no dia L.
De seguida vão ao site da rede social e registem-se, e juntem-se ao grupo que geograficamente estiver mais perto. Cada grupo tem o seu fórum onde agendam reuniões, discutem sobre o que tem que ser feito, etc. Participem activamente.
Abraço!
Sem mais demoras, algumas fotos do dia em que ficámos alojados em casa do primo da Rita em Lisboa, onde fomos excessivamente bem recebidos e por demais apaparicados, ainda por cima com o aspecto insalubre que tínhamos na altura...
Estas foram tiradas pouco antes de sairmos para jantar fora, apanhámos o metro até ao Colombo, onde tivémos a nossa dose de boa comida (Chimarrão e All-In-The-Box foram os grandes vencedores) e claro, um sundae. Fomos engolidos pelo ambiente cosmopolita, cheio de cores, pessoas e movimentos, tivemos como que um "respirar de sociedade" durante essas horas. Soube bem, especialmente bem, porque sabíamos que no dia seguinte estávamos afastados da selva, e de volta à estrada.
Na manhã seguinte, enquanto arrumávamos os pertences e preparávamo-nos para pedalar por Lisboa. Tinham passado seis dias desde que saímos da Figueira, e não é demais voltar a dizer que este descanso, no que era supostamente território hostil para viajantes como nós, era mais do que necessário. Voltámos a sentir-nos revigorados e prontos para a próxima etapa, e o aproximar de um objectivo cobiçado: explorar a costa alentejana.Despedimo-nos com promessas de "até à próxima".
Mia Couto, "Venenos de Deus, Remédios do Diabo"
Este post serve para dizer que estamos vivos, e que um dia o Daniel continua com o relato da viagem :)
Abraço*
Chegámos a Sete-Rios e fomos recebidos pela Rita e pelo Diogo, amigos do Tiago.
Um bom banho quente, um passeio e jantar no Colombo, uma bela sessão de chillout na sala com uns amendoins :P
Foi um recarregar de baterias tanto para nós como para os nossos telemóveis. Um grande obrigado aos dois, e ao primo da Rita. *tips hat*
Acordámos cedo na manhã seguinte, despedimo-nos (até à próxima) dos nossos anfitriões e partimos pelo meio de Lisboa: Marquês de Pombal - de bicicleta pelo meio da selva - Terreiro do Paço. Daí apanhámos um ferry para a margem Sul, atravessámos de comboio até Setúbal para apanhar de novo um ferry para Tróia.

Fizémos o almoço em Tróia, debaixo de um banco, à beira da ciclovia que percorre a península de uma ponta até à outra. À saída passámos por um grupo de pedaleiros armados de alforges também. Meti conversa... era tudo malta mais velha; disseram que iam até Melides naquele dia, tinham partido de Lisboa de manhã também e queriam chegar a Lagos. Pelo caminho iam parando em pousadas e parques de campismo quando não houvesse alternativa. Parece que o cicloturismo não é assim tão incomum :)Despedimo-nos e fomos ao nosso ritmo.
Passámos pela Comporta para abstecer de mantimentos - uma terra um pouco estranha, parece que o propósito da vila é mesmo esse, abastecer os turistas que vão às praias da zona - e continuámos, decididos a chegar a Melides também.
Pelo caminho, uma casa cheia de pombos, uma sessão de puro diggin' à beira estrada, um autocarro-bar.
Soube bem, menos ao Tiago... que apanhou um resfriado e acordou na manhã seguinte com uma gripe!
Abraço, até à próxima.
Saldo: 241km
Esta é uma foto com história. Não é, no entanto, a foto da primeira vez que assámos umas chouriças... A primeira vez que fizemos isso, para um jantar reforçado, curiosamente não foi capturada por nenhuma máquina, ou se calhar esses registos ainda não me chegaram às mãos. Fica aqui a história.Tínhamos decidido dar uso aos chouriços que o Paraíba trazia de casa, já lhe andavam a pesar nos alforges. O Tiago por acaso tinha trazido álcool no estojo de primeiros socorros e não nos faltava nada... a não ser talvez um pára-vento. Olhando para trás, para essa noite, fico com a impressão que o senso comum e toda a nossa genialidade habitual (modéstia à parte) nos tinha abandonado por completo. Começámos por achar que, como o álcool não arde assim tão bem, ainda por cima com este vento todo, porque não abrigar o prato raso cheio de álcool dentro do avançado da tenda de nylon (altamente inflamável) e assim assegurar que fica uma refeição bem feita?
Sim, sim, vamos experimentar.
Olhando outra vez para trás, para essa noite, acho também que tivemos muita sorte :) Não só descobrimos que o álcool afinal arde sem problema nenhum, como também ficámos a saber que, se em excesso, produz umas labaredas de altura considerável. Labaredas que dançam formidavelmente, especialmente se alimentadas por um pouco de vento... uma imagem poderosa e linda de se ver, fora do avançado da tenda de nylon. (já disse que é altamente inflamável?)
Fica a dica!
Abraço

Partimos de manhã, por uma grande ciclovia (iria até à Nazaré!). S. Pedro de Moel e outras tantas praias ficaram para trás. Almoçámos num parque de merendas à beira-estrada, onde tivemos que resistir à tentação de "provar" os vários artigos que outras pessoas deixaram em cima das mesas, quem sabe para ir dar um mergulho ou só espreitar a praia... Foi aqui que primeiro travámos conhecimento com um holandês que fazia, de bicicleta, Holanda - Marrocos. Tinha saído há 1 dia da Figueira! (feito o mesmo que nós só num dia) e agora estava com dúvidas sobre onde ficava a Nazaré. Mais tarde, nesse mesmo dia, o Tiago e o Manel voltariam a encontrá-lo e trocar umas palavras enquanto pedalavam.
Pequeno acidente com uma dose generosa de sorte.
Fizemos uma paragem na Nazaré, fomos ao Sítio, comi uns cajus enquanto a senhora que mos tinha vendido dizia entusiasmaticamente "Ali, ali vê-se a marca da pata do cavalo! A marca do milagre..." Do promontório milagroso avistava-se a costa até muito longe, e vimos a estrada desenhada que ainda tínhamos que percorrer até S.Martinho, que adivinhámos ser uma das falhas entre falésias que se viam mais para Sul...
Seguimos até lá, e chegámos ainda a tempo de um mergulho nas águas da baía.S. Martinho é uma baía semi-circular perfeitinha, a ligação ao mar apenas uma fenda entre falésias. Demorámos algum tempo a encontrar poiso onde ficar, e enquanto procurávamos meio desamparados, surgiu um velhote no meio da rua. Um boa-tarde e uma pergunta honesta valeram-nos um conselho: entre as dunas altas na ponta da baía, encostados à praia, montámos o nosso acampamento.
Nessa noite, depois de jantar, fomos até à vila dar uma volta de reconhecimento. Tem uma marginal invejável! No outro extremo da baía, há um túnel que atravessa a rocha de um lado ao outro, até ao mar.
A próxima jornada levou-nos mais para o interior, tínhamos que contornar a lagoa de Óbidos, passando pelas Caldas da Rainha, e depois virar de novo para a costa na direcção de Peniche. Foi uma etapa mais difícil pelos altos e baixos... mas conseguimos estar em Óbidos para almoçar e descansar (e beber a ginginha!) durante o pico do calor, só por isso valeu a pena. De tarde, mais subidas até perto de Peniche, depois virando para Sul veio o que, provavelmente, foi a descida mais comprida da viagem, quase até à Praia da Areia Branca! Foi aí que parámos para a terceira noite, num canavial perto de umas dunas.
Nesta altura já se começa a notar um certo à vontade com a rotina de procurar um cantinho, montar tudo, jantar, e às vezes dar uma volta na povoação. Neste caso estávamos meio afastados, e os dois furos (um meu e outro do André!) atrasaram-nos um bocado, pelo que acabámos por ficar pelo acampamento.
Na manhã seguinte acordamos não para um mergulho, mas para um banho nos balneários da praia! Podem ver pelo entusiasmo ligado a uma coisa tão banal como um banho que para nós era qualquer coisa de extraordinário. :P Almoçámos num snack-bar a olhar para a praia, e partimos só à tarde.
Sustos à parte, foi um óptimo sítio para ficar. Na manhã seguinte acordámos com uma notícia que nos pôs em polvorosa. Pela primeira vez tínhamos um prazo, uma hora e sítio para estar no fim da próxima jornada... descubram onde, no próximo episódio :P(quarto onde dormimos)
Bilhete que deixámos aos donos da cubata (letra do Tiago!)
Saldo: 191km





